sexta-feira, 11 de março de 2011

As seis estrofes da iluminação

Não sou mente nem razão, não sou ego nem consciência;
não sou audição, nem paladar, olfato nem visão;
não sou espaço nem terra; não sou luz nem ar.
Em forma de consciência e felicidade, eu sou Shiva, eu sou Shiva.

Não sou o que se conhece como energia, nem os cinco alentos vitais;
nem os sete elementos, nem os cinco corpos;
não sou fala, nem mãos ou pés; nem sexo nem eliminação.
Em forma de consciência e felicidade, eu sou Shiva, eu sou Shiva.

Não tenho apego nem aversão; nem ambição, nem ilusão;
orgulho e inveja não são meus;
não tenho deveres, nem objetivos, nem desejos, nem busco a libertação.
Em forma de consciência e felicidade, eu sou Shiva, eu sou Shiva.

Não sou virtude, nem erro; nem alegria nem sofrimento;
nem os mantras, nem os lugares sagrados; nem as escrituras, nem os rituais;
não sou o prazer, nem o que produz o prazer, nem aquele que o desfruta.
Em forma de consciência e felicidade, eu sou Shiva, eu sou Shiva.

HUMANIZAR: Responsabilidade de quem ama

Muito se tem falado sobre humanização do parto, e muitas vezes chego a pensar o que realmente isso quer dizer. Afinal de contas, se a palavra humanizar vem de humano, temos que ir com bastante cautela em sua utilização, pois nem sempre o que vem do ser humano é exemplo de boa conduta, de ações que visem o bem da coletividade e de respeito pela vida.

Basta olhar para o que o homem tem feito a séculos, especialmente seu afastamento e descaso para com a natureza. Não precisamos fazer uma lista, não caberia aqui. O que caberia é encontrar o sentido verdadeiro de ser humano, ou seja: humaniza-lo antes de tentar humanizar qualquer outra coisa. E para isso, teremos que considerar como ponto de partida um retorno a nossa verdadeira origem e essência. Descobrir nossas aptidões naturais, nossa capacidade de promover o bem, de amar, de partilhar a vida com outros seres, de forma harmoniosa. É preciso que olhemos para a vida com os olhos de uma criança, para que possamos compreender de forma simples a naturalidade das coisas da vida. É preciso ainda remexer nossos conceitos e preconceitos, sair do confortável tecnológico e reencontrar a espontaneidade de simplesmente ser que nos permite fluir em acordo com as leis da existência.

Será que é natural, por exemplo, que as fêmeas de nossa espécie, por algum infortúnio, não sejam mais capazes de dar a luz a seus filhos naturalmente como o fazem as outras mamíferas? O que teria acontecido conosco que pudesse realmente justificar o alto índice de partos cirúrgicos? E porque é que isso acontece de forma ainda mais assombrosa a nós, mulheres brasileiras?

Sabemos que muita gente está refletindo a este respeito, que esta é, sem dúvida, uma preocupação importante dentro do cenário das urgências de uma imensa pilha de questões sociais aguardando uma solução. E felizmente, muitas propostas de melhorias já estão sendo implementadas dentro das instituições de saúde, entidades e grupos independentes seriamente envolvidos. No entanto, há ainda muito a se fazer para que possamos transformar o panorama atual dos nascimentos, se há ainda alguma esperança de um mundo melhor, mais justo e afetuoso.

Não é possível que tanto descaso continue acontecendo quanto a esse momento mágico, de extrema fragilidade e importância na vida de cada ser que nasce e que faz nascer. Não é mais possível aceitarmos que o início da vida fora do útero materno seja tão frio, tão carente de delicadeza, de afetividade e respeito e tão mais envolvido com o cumprimento de uma lista infindável de rotinas hospitalares, que, na maioria das vezes, não leva em consideração que tais procedimentos podem causar traumas indeléveis naqueles que as recebem logo ao nascer.

Também não podemos deixar de olhar para a forma como são tratadas aquelas que deveriam ser as protagonistas do evento, as parturientes, fêmeas quase sempre impossibilitadas de simplesmente agirem de acordo com a sua natural espontaneidade e fisiologia. Num momento de enorme sensibilidade e aguçada intuição, são elas conduzidas a se comportarem de forma obediente e sem voz, para que os profissionais de saúde possam fazer o parto, interferindo muitas vezes desnecessariamente no fluxo natural da vida, que rege majestosamente os eventos de forma perfeita e inusitada. O parto é um acontecimento sempre imprevisível, ele não se repete e por isso é tão temido pela ciência, que a duros custos para tantos, acabou criando uma maneira eficiente de torná-lo rotineiro e controlável. E acreditem, o preço de tal atitude é pago diariamente por toda a sociedade, composta de indivíduos nascidos assim, em sua gigantesca maioria. O que mais poderíamos reproduzir enquanto indivíduos dentro de uma coletividade, se fomos recebidos de forma tão desrespeitosa logo em nosso primeiro segundo de vida?

É preciso mudar. É urgente. Humanizar o trabalho de parto e o parto é responsabilidade de todos. É um ato de cidadania, de amor e de respeito pela vida.

Adriana Valverde é professora de Yoga para gestantes, terapeuta ayurvédica e doula.

Quando tudo o mais falhar


Quem não esta atrás da felicidade? Todos querem experimentar um estado continuo de satisfação e alegria, e inventamos muitos “mapas do tesouro” diferentes. A felicidade parece sabonete, quando achamos que a temos em mãos ela, vupt! Escorrega de nossas mãos. Ela já foi procurada numa vida hedonista cheia de prazeres sensuais, no final provou-se que ela não é muito dada a baladas, vem nos visitar, mas sempre está com pressa, chega, ceia conosco e logo vai embora, fazendo papel de cachorro magro. Ao fim no caminho dos prazeres efêmeros chegamos com as mãos vazias e voltamos com as mesmas mãos vazias e certa dose de frustração e culpa.

A felicidade já foi procurada nos relacionamentos, na construção de uma relação estável e na educação dos filhos, mas quais são de fato as garantias oferecidas dentro das relações? Não podemos de fato viver na absoluta segurança, a pessoa que amamos hoje, poderá ser nosso pesadelo amanhã. Ninguém pode garantir seus sentimentos, e como somos mutáveis por natureza, invariavelmente nos frustraremos com as pessoas que não nasceram para realizar nossos desejos. Hoje quem amamos poderá partir, seja com outro, ou para o outro “mundo”, e irremediavelmente sofreremos se apoiarmos nossa realização no outro.

Alguns buscaram a felicidade em lutas politicas, de classe, em algum movimento revolucionário, mas a mudança externa não necessariamente produz alguma transformação interna, ao fim vê-se que a bandeira de luta sociopolítica, pode ser importante para mudar a situação social em que estamos inseridos, mas a felicidade precisa acontecer independente do mundo que nos cerca. Os lideres revolucionários, não raro, aposentam-se como os mais acomodados.

Buscar a felicidade em algum tipo de consolo místico também não parece muito inteligente, inventamos a cada dia uma nova religião, com um novo e exótico Deus para adorar, buscamos alivio na outra vida porque nesta parece-nos impossível de encontrar. Estes agrupamentos religiosos acabam servindo aos interesses de vampiros emocionais, que sugam o dinheiro e o tempo de pessoas carentes e desesperadas. Se religião pudesse garantir alguma felicidade já não deveria existir sofrimento no mundo, afinal são tantas denominações e crenças há tanto tempo sobre a Terra e pouca coisa mudou, só para pior de fato.

A realização profissional pode trazer uma boa dose de alegria, mas também ela não garante de fato nossa felicidade, hoje podemos estar em um negocio prospero e amanha perdemos toda a nossa tão amada fortuna. Hoje estamos felizes com o que fazemos; amanhã uma crise existencial pode nos revelar que estamos rumando contra o nosso desejo e verdadeira vocação. Sucesso e fracasso se alternam e depositar a felicidade na realização profissional também me parece contraproducente. Sucesso e fama também são impermanentes.

O cultivo intelectual de longe é um bem um tanto mais perene, nutrir-se interiormente com cultura e conhecimento pode ser muito útil, mas também não significará que a felicidade é garantida através do intelecto. O conhecimento é dinâmico ele pode proporcionar discernimento e compreensão do mundo, o que nos ajudará a conduzir nossos passos, mas também teremos que correr atrás, se atualizar, este é um jardim que deve ser constantemente cuidado. Mas a felicidade parece ir para um campo ainda mais profundo, assim podemos ser intelectuais brilhantes, no entanto taciturnos, sombrios.

A felicidade não pode estar apoiada naquilo que é perecível, ou então teremos de admitir sua transitoriedade, ela também não deve ser confundida com alegria, pois este sentimento também é mutável, alegria e tristeza revezam-se em nosso universo emocional. A felicidade não pode estar associada com o tempo e o espaço, com situações de vida ou conquistas transitórias. Uma vida prospera e abastada pode ser profundamente triste, assim como uma vida simples privada de inúmeros confortos e comodidades pode ser sobremodo feliz. Já buscamos a felicidade de muitas maneiras e fracassamos, este fracasso é em verdade uma benção feroz, que remove o ilusório para que a realidade possa brilhar. É bom que frustremo-nos com estas buscas infrutíferas.

Quando tudo o mais falhar, então invariavelmente nos voltamos para nós mesmos, e quem sabe poderemos encontrar a fonte de toda felicidade no nosso centro mais profundo, assim buscaremos refugio em nosso próprio SER. Quando as ofertas do mundo externo fracassarem em suas promessas falsas de satisfação, quem sabe fecharemos os nossos olhos para adentrar os nossos bosques sombrios em busca de nós mesmos. Felicidade é equanimidade, felicidade é a descoberta de si, é a aceitação de si. Felicidade é viver em paz livre de conflitos.

Então sim poderemos viver uma espiritualidade livre de dogmas e absurdas verdades inquestionáveis. Poderemos celebrar a vida sem a necessidade de ferir ou sair machucado pela inconsequência de nossos atos. Poderemos viver relacionamentos profundos em que a verdade seja o solo fértil para o amor florir. Poderemos lutar numa revolução mais consistente em que a transformação social é o resultado da transformação interna. Poderemos aplicar nossa energia, força e o suor de nossas frontes naquilo que verdadeiramente é a nossa vocação, uma vez que sabemos quem somos, sabemos o que viemos realizar no mundo. Para ser felicidade tem que ser incondicional, pois a felicidade não é algo que se tem, é algo que se É. Nesta realização plena da felicidade, nosso intelecto não mais estará em conflito com nossas emoções, harmoniosamente integrado o pensamento, a palavra, as atitudes e os sentimentos.

Onde não existir conflito, haverá paz, equanimidade e clareza interna!

Haverá por fim a tão desejada Felicidade

Vida Plena!